A Rosa dos Ventos que o Mar Levou
Por Zeli Scheibel
Dizem que o vento tem memória. E, na Praia de Atlântida Sul, ele guarda segredos. Em todos os verões, mistura o som das risadas num burburinho ao redor da Rosa dos Ventos. Era ali, naquele círculo de concreto e sal, que famílias se encontravam, que amores começavam e despedidas silenciosas se davam.
Cada direção apontava para um destino, mas também para um tempo: o norte dos verões da infância, o sul das saudades, o leste das promessas, o oeste dos regressos.
Durante anos, o monumento guardou os verões, os risos, os amores. E, quando o sol se punha, o vento girava suave, como uma bênção. Mas, na madrugada de 3 de janeiro, o mar, velho senhor impaciente, avançou como quem reclama espaço. As ondas rugiram como feras antigas e engoliram o monumento inteiro.
A ressaca levou a Rosa dos Ventos.
Ao amanhecer, restavam apenas as batidas do mar na areia, um vazio úmido, um vento sorrateiro. Muitos disseram que foi destruição. Outros, que foi aviso. Porque um espírito do vento não morre, apenas muda de forma.
Desde então, o vento sopra diferente em Atlântida Sul.
Há quem jure ouvir, nas madrugadas, um chamado breve, um murmúrio leve, como se o próprio Monumento respirasse por entre as dunas.
Dias depois, os moradores caminharam por ali em silêncio. Porque a Rosa dos Ventos era mais do que pedra: era o centro invisível que unia todos. Mas, como tudo o que é símbolo, ela não desapareceu. Mudou de lugar.
Hoje vive em cada fotografia antiga, em cada história contada à mesa, em cada criança que pergunta:
— “Mãe, onde ficava a Rosa dos Ventos?”
E talvez, quando for reconstruída, e será, o novo monumento traga em si algo que o mar não pode levar: o coração coletivo de quem aprendeu que um símbolo não se perde quando é amado.

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